A mobilidade urbana deixou de ser apenas fluidez de tráfego e tornou-se eixo central do planejamento das cidades: o direito à cidade depende das condições reais de deslocamento e de acesso a oportunidades, serviços e espaços de convivência.
No Dia Mundial da Engenharia para o Desenvolvimento Sustentável (04 de março), conversamos com Matheus Barboza, coordenador de mobilidade urbana da Quanta, doutor em Engenharia de Transportes pela POLI/USP e pela University of Twente (Países Baixos), e pesquisador no Centro de Ciência de Dados para Estatísticas Públicas (CCDEP), para refletir sobre as conexões possíveis entre sustentabilidade, mobilidade e engenharia. O que ele nos diz converge para uma questão importante: como os modos de transporte distribuem oportunidades no território. Sustentabilidade e desenvolvimento urbano não se resumem a asfalto ou trilhos, mas à forma como a infraestrutura de transportes articula o acesso à cidade. Essa perspectiva exige integrar crescimento urbano e mobilidade, com preservação ambiental, para que decisões técnicas não comprometam recursos naturais nem a qualidade de vida das futuras gerações.

Foto: Consórcio Quanta/Práxis
Mobilidade e desenvolvimento territorial sustentável
Na minha prática profissional, torna-se evidente que um dos maiores obstáculos no Brasil, quando falamos de mobilidade e desenvolvimento territorial sustentável, vai além da engenharia. Existem barreiras institucionais e uma fragmentação no planejamento que frequentemente isolam a mobilidade do uso do solo.
Um desafio crítico é a fragmentação entre os entes federativos, que dificulta a gestão metropolitana e a construção de políticas integradas que ultrapassem fronteiras municipais em prol do cidadão.
Como destaca o coordenador de mobilidade urbana da Quanta:
“Uma solução técnica impecável falha se não houver diálogo com a realidade social do território e com as instituições envolvidas.”
Planejar a mobilidade, portanto, exige integração, articulação institucional e compreensão das dinâmicas sociais que estruturam o território.

Foto: Consórcio Quanta/Práxis
Engenharia multidisciplinar e uso de dados
Na Quanta, a atuação em mobilidade urbana é estruturada a partir de uma visão interdisciplinar. A engenharia de transportes é integrada às áreas de urbanismo, economia, geografia, meio ambiente e ciência de dados.
A combinação dessas dimensões amplia a qualidade das soluções, permitindo projetar cenários que não apenas respondem aos gargalos atuais, mas antecipam as necessidades futuras das cidades.
O uso de dados espaciais e modelagens não é um fim em si mesmo. As evidências técnicas são utilizadas para qualificar o planejamento, orientar decisões estratégicas e assegurar que cada investimento em infraestrutura maximize seu impacto social e ambiental.
Não se trata de olhar para o dado pelo dado, nem de analisar os problemas exclusivamente pela ótica da mobilidade, mas de utilizar as evidências para estruturar políticas públicas mais consistentes, alinhadas ao desenvolvimento sustentável e aos interesses sociais.

Financiamento, descarbonização e acessibilidade
O debate público sobre mobilidade urbana no Brasil vem amadurecendo, especialmente no que se refere ao financiamento do sistema. A dependência exclusiva da tarifa paga pelo usuário demonstra limites estruturais e exige a busca por fontes subsidiárias e extratarifárias.
O avanço das políticas públicas passa pela descarbonização dos sistemas, pelo fortalecimento do transporte sobre trilhos e pela priorização efetiva do transporte coletivo e dos modos ativos.
Alinhar inovação técnica e sustentabilidade significa desenhar sistemas eficientes, mas, acima de tudo, acessíveis.
Como sintetiza o especialista:
“Planejar a mobilidade é desenhar o acesso à cidade indo além de mover veículos, mas de pensar soluções que condensem as demandas das pessoas, meio ambiente e desenvolvimento territorial.”
A engenharia, nesse contexto, consolida-se como instrumento fundamental para o desenvolvimento urbano sustentável, articulando infraestrutura, planejamento territorial e qualidade de vida.
O que a conversa revela é que as respostas raramente cabem em um único modo, uma única obra ou uma única métrica. Planejar mobilidade é lidar com limites e escolhas, e com a responsabilidade de não empurrar custos para o futuro. Quando a técnica se conecta ao território, a engenharia deixa de ser só execução e vira orientação, ajudando a cidade a decidir, com mais consistência, onde quer chegar e quem vai conseguir chegar junto.

Matheus Barboza é doutor em Engenharia de Transportes pela POLI/USP e University of Twente (Países Baixos), atua como coordenador de mobilidade urbana na Quanta e pesquisador no Centro de Ciência de Dados para Estatísticas Públicas (CCDEP). Tem experiência em planejamento de transportes, dados espaciais e análise integrada de mobilidade urbana.
