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Março das Mulheres: gênero, desigualdade e o compromisso com a equidade.

Março das Mulheres: gênero, desigualdade e o compromisso com a equidade.
Publicado em
10 março 2026

Todos os anos, o mês internacional das mulheres, retorna ao calendário como um convite à celebração das conquistas históricas das mulheres. Mas, no Brasil contemporâneo, essa data também nos convoca a um exercício inevitável de reflexão. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, falar sobre gênero significa, necessariamente, olhar para as estruturas que ainda produzem violência, silenciamento e exclusão.

Os dados mais recentes mostram que esse debate permanece urgente. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio, segundo o levantamento Retrato dos Feminicídios no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número representa um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior e significa que, em média, mais de quatro mulheres foram assassinadas por dia simplesmente por serem mulheres. Desde a promulgação da Lei do Feminicídio, em 2015, o país já contabiliza mais de 13,7 mil mulheres mortas em crimes motivados por violência de gênero.

Por trás desses números existem padrões que ajudam a compreender a dimensão estrutural desse fenômeno. A maior parte das vítimas são mulheres negras, e a maioria dos crimes acontece dentro da própria casa, espaço que deveria representar proteção, mas que frequentemente se torna o local mais perigoso para muitas mulheres. Em grande parte dos casos, o agressor é um parceiro ou ex-parceiro, revelando como relações marcadas por desigualdade de poder ainda estruturam a experiência cotidiana de muitas mulheres.

Outro dado igualmente alarmante é que mais de 13% das vítimas de feminicídio possuíam Medida Protetiva de Urgência no momento em que foram assassinadas. Em números absolutos, 148 mulheres foram mortas mesmo após terem buscado proteção do Estado. O dado evidencia não apenas a gravidade da violência, mas também os limites institucionais ainda presentes na capacidade de prevenção e proteção.

Esses números não são apenas estatísticas. Eles revelam uma estrutura histórica de desigualdade que atravessa instituições, relações sociais e oportunidades de vida. A filósofa e ativista Angela Davis lembra que a violência contra as mulheres não pode ser compreendida isoladamente, pois está profundamente conectada a outras formas de opressão social, como o racismo e as desigualdades econômicas.

No Brasil, essa análise ganha contornos ainda mais evidentes. A intelectual Lélia Gonzalez, uma das pioneiras do feminismo negro brasileiro, já apontava que raça e gênero operam de forma combinada na produção das desigualdades sociais. Para Gonzalez, compreender o país exige reconhecer como a experiência das mulheres negras revela as contradições profundas da sociedade brasileira que é marcada por hierarquias históricas que estruturam acesso a direitos, oportunidades e reconhecimento.

Essa perspectiva também dialoga com as reflexões da socióloga norte-americana Patricia Hill Collins, que desenvolveu o conceito de “matriz de dominação” para explicar como diferentes sistemas de poder como racismo, sexismo e desigualdade de classe, se entrelaçam e se reforçam mutuamente. A partir dessa perspectiva, compreender a violência de gênero exige olhar para essas intersecções e reconhecer que diferentes grupos de mulheres vivenciam essas desigualdades de formas distintas.

No contexto brasileiro, a filósofa Sueli Carneiro também nos lembra que o enfrentamento das desigualdades de gênero precisa necessariamente dialogar com o enfrentamento do racismo estrutural. Para a autora, a construção de uma sociedade democrática exige reconhecer que a exclusão social e a violência têm cor, gênero e território.

Diante desse cenário, torna-se cada vez mais evidente que a promoção da igualdade de gênero não é apenas responsabilidade das políticas públicas ou dos movimentos sociais. Ela também exige o engajamento ativo das instituições, das organizações e das empresas.

Ambientes de trabalho são, antes de tudo, espaços sociais. Eles refletem valores, reproduzem desigualdades ou contribuem para transformá-las. Questões como acesso a oportunidades, participação em espaços de liderança, equilíbrio entre vida profissional e responsabilidades de cuidado e a construção de ambientes seguros e respeitosos fazem parte do cotidiano das organizações e impactam diretamente a vida das pessoas.

Nos últimos anos, tem se consolidado no mundo corporativo a compreensão de que diversidade, equidade e inclusão não são apenas pautas sociais – são também dimensões fundamentais da sustentabilidade institucional e da inovação. Organizações diversas tendem a desenvolver soluções mais criativas, compreender melhor os contextos sociais nos quais atuam e fortalecer sua capacidade de diálogo com a sociedade.

Na Quanta, esse entendimento dialoga diretamente com a forma como pensamos o desenvolvimento territorial. Trabalhar com engenharia, planejamento urbano, meio ambiente, recursos hídricos e energia exige olhar atento para as desigualdades que atravessam os territórios e para as diferentes realidades vividas pelas pessoas.

Promover diversidade dentro da organização significa, também, ampliar nossa capacidade de compreender essas realidades e de desenvolver projetos mais justos, inclusivos e sustentáveis.

Nesse contexto, a criação do Comitê de Diversidade e Inclusão representa um passo importante no fortalecimento de uma cultura institucional baseada no respeito, na escuta e na valorização das diferentes trajetórias que compõem a equipe da empresa. Mais do que um espaço formal, o comitê busca estimular reflexões, propor ações e contribuir para que a diversidade seja compreendida como um valor estratégico e humano dentro da organização.

Como parte das ações relacionadas ao mês das Mulheres, a empresa também promoveu um debate sobre gênero, raça e território, ampliando a discussão sobre como essas dimensões se articulam nos processos de planejamento das cidades e nos desafios contemporâneos do desenvolvimento social.

Celebrar o 8 de março, portanto, não é apenas reconhecer conquistas importantes alcançadas pelas mulheres ao longo da história. É também reafirmar um compromisso coletivo com a construção de uma sociedade em que todas as pessoas possam viver com dignidade, segurança e oportunidades reais de participação.

Como nos lembra a escritora brasileira Conceição Evaristo, “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”. A frase, frequentemente citada como símbolo de resistência, também pode ser lida como um chamado à responsabilidade coletiva: construir instituições mais justas, inclusivas e comprometidas com a transformação social.

É nesse horizonte que se inscreve o compromisso de fortalecer ambientes de trabalho mais diversos e respeitosos, e, de contribuir, a partir das nossas práticas institucionais, para a construção de territórios e sociedades mais equitativas.

Luana Braga Batista é antropóloga, pesquisadora sênior e analista de dados, doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ e fellow de pesquisa em Harvard. Atua nas intersecções entre justiça racial, de gênero e climática, com experiência em políticas territoriais, educação popular, participação social e incidência política junto a organizações da sociedade civil, movimentos sociais, governos locais e organismos internacionais.

Foto: Arquivo Pessoal

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