Na Amazônia, o comportamento dos rios atravessa o cotidiano. Cheias e vazantes influenciam os deslocamentos, o acesso à água e o funcionamento dos serviços. Nas cidades e nas comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas, essas relações assumem formas diferentes, conhecidas por quem vive em cada território.
Como planejar intervenções que respondam a essas condições? E como acompanhar se elas contribuem para melhorar os serviços e reduzir a exposição da população aos riscos climáticos?
Essas perguntas orientam o trabalho da Quanta na estruturação do Programa de Resiliência e Segurança Hídrica do Estado do Amazonas, identificado como Amazonas Resiliente. Voltada a Itacoatiara, Eirunepé e Presidente Figueiredo, a proposta articula diagnóstico, participação e soluções de saneamento e adaptação climática.
Um diferencial dessa construção é o marco de 14 indicadores, com metas para 2032. Ele estabelece referências para acompanhar as intervenções, reconhecer avanços e orientar ajustes durante a execução.

Conhecer o território para definir as prioridades
Os três municípios apresentam condições distintas de acesso, ocupação e relação com a água.
Em Itacoatiara, a dinâmica do rio Amazonas influencia as condições de cheia e vazante. Em Eirunepé, as grandes distâncias e a ausência de acesso rodoviário interferem na implantação e na manutenção dos serviços. Presidente Figueiredo apresenta outro contexto hidrográfico e de acesso, com demandas próprias de saneamento e drenagem.
O diagnóstico integrado examinou abastecimento de água, esgotamento sanitário, resíduos sólidos, drenagem, riscos geológicos e hidrológicos e capacidades institucionais.
Para organizar as prioridades, a equipe utilizou uma matriz multicritério, ferramenta que permite comparar problemas e alternativas a partir de diferentes critérios. Essa análise foi associada à validação local, aproximando as informações técnicas da experiência das instituições e comunidades.
A escolha de uma solução considera, assim, o problema identificado e as condições para que ela permaneça funcionando.

Como a natureza participa das soluções?
Ao longo desta série, apresentamos aplicações de Soluções Baseadas na Natureza (SBN) em projetos da Quanta em Maricá, no Rio de Janeiro, e no Complexo Hidrossocial Barragem Oiticica, no Rio Grande do Norte.
Na Amazônia, a abordagem considera outras dinâmicas territoriais. As SBN utilizam processos dos ecossistemas para responder a desafios sociais e ambientais e, no programa, integram propostas de tratamento de esgoto e drenagem urbana.
Em Itacoatiara e Presidente Figueiredo, estão previstos sistemas que combinam tratamento biológico convencional com wetlands construídos, ou áreas úmidas construídas. Vegetação, materiais de suporte e microrganismos contribuem para melhorar a qualidade da água.
Esses sistemas funcionam como uma etapa complementar de polimento: um tratamento adicional destinado a reduzir poluentes remanescentes das etapas anteriores.
Em Presidente Figueiredo, a proposta de drenagem inclui biovaletas, estruturas vegetadas que recebem a água da chuva e favorecem sua condução, retenção temporária e infiltração. Elas ajudam a reduzir o escoamento superficial e a sobrecarga da drenagem.
A experiência da Quanta em SBN se expressa na integração desses processos às decisões de engenharia. A escolha envolve dimensionamento, características do terreno e condições locais de operação e manutenção.Conhecer a dinâmica e o território ajuda a desenvolver soluções que conversam com as dores de quem vive no Amazonas.
Quem utiliza os serviços e convive com as cheias, as secas e as dificuldades de acesso conhece aspectos que precisam chegar ao planejamento.
A estruturação do programa incluiu oficinas presenciais de validação das propostas e a participação de órgãos estaduais, administrações municipais, Defesa Civil, operadores de saneamento e lideranças comunitárias.
Esses encontros permitem discutir prioridades e avaliar a adequação das alternativas. O conhecimento do território contribui para reconhecer dificuldades de acesso, necessidades de manutenção e condições que os dados, isoladamente, podem não explicar.
O processo considera as diretrizes de Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) para povos indígenas e comunidades tradicionais. Elas orientam uma participação anterior às decisões, com informações compreensíveis e respeito às formas próprias de organização dos grupos envolvidos.

Conhecer a dinâmica e o território ajuda a desenvolver soluções que conversam com as dores de quem vive no Amazonas.
Quem utiliza os serviços e convive com as cheias, as secas e as dificuldades de acesso conhece aspectos que precisam chegar ao planejamento.
A estruturação do programa incluiu oficinas presenciais de validação das propostas e a participação de órgãos estaduais, administrações municipais, Defesa Civil, operadores de saneamento e lideranças comunitárias.
Esses encontros permitem discutir prioridades e avaliar a adequação das alternativas. O conhecimento do território contribui para reconhecer dificuldades de acesso, necessidades de manutenção e condições que os dados, isoladamente, podem não explicar.
O processo considera as diretrizes de Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) para povos indígenas e comunidades tradicionais. Elas orientam uma participação anterior às decisões, com informações compreensíveis e respeito às formas próprias de organização dos grupos envolvidos.

O que os indicadores permitem acompanhar?
Uma intervenção pode ampliar o acesso à água ou melhorar a proteção diante de alagamentos. Para acompanhar essas mudanças, é necessário definir o que será medido e qual situação servirá de referência.
A linha de base registra esse ponto de partida. A meta estabelece o resultado esperado. Cada indicador relaciona essas referências a uma forma de cálculo e às fontes de informação utilizadas.
Entre as metas para 2032, o programa prevê:
- Atendimento por rede de água para 99% da população urbana dos três municípios.
- Sistemas de alerta operantes para 100% da população residente nas áreas de risco mapeadas.
- Redução dos índices de perdas de água em pelo menos 20% em relação à linha de base de cada município.
- Tratamento de 100% do esgoto coletado em Itacoatiara e Presidente Figueiredo.
- Redução de 25% na taxa de internações por doenças de veiculação hídrica, relacionadas à água contaminada e às condições inadequadas de saneamento.
São resultados esperados, que deverão ser acompanhados durante a implantação. Os recortes importam: ampliar a rede coletora e tratar o esgoto coletado, por exemplo, são medidas diferentes e precisam ser avaliadas em conjunto.
A participação também integra essa estrutura. As metas incluem pelo menos 50% de participação feminina nas capacitações e instâncias de decisão e validação e 30% entre as pessoas responsáveis pela operação dos sistemas descentralizados de abastecimento.
Uma metodologia com potencial de aplicação em outros sistemas
A conexão entre problemas, ações e resultados é organizada pela Teoria da Mudança, metodologia que explicita como as intervenções podem contribuir para as transformações esperadas e quais condições são necessárias para isso.
No Amazonas Resiliente, ela articula monitoramento e alerta, infraestrutura de saneamento e fortalecimento institucional.
Uma obra depende de operação e manutenção. Um alerta precisa alcançar as pessoas expostas ao risco. Um sistema de tratamento precisa funcionar de forma contínua. Os indicadores ajudam a observar essas relações e a apoiar decisões.
A metodologia de indicadores foi bem recebida pelo cliente, que manifestou interesse em aplicá-la em outros sistemas. Essa possibilidade evidencia o valor de estabelecer referências claras desde o planejamento, com adaptações às condições de cada contexto.
Na atuação da Quanta, o conhecimento especializado em SBN se articula à participação e ao acompanhamento dos resultados. Planejar com o território significa considerar os processos naturais, os saberes locais e as condições necessárias para que as intervenções contribuam para a segurança hídrica da população.