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Soluções Baseadas na Natureza no Complexo Hidrossocial Barragem Oiticica: água, tratamento natural e reúso no semiárido potiguar

Soluções Baseadas na Natureza no Complexo Hidrossocial Barragem Oiticica: água, tratamento natural e reúso no semiárido potiguar
Publicado em
05 outubro 2026

Nos conteúdos anteriores, mostramos o que são as Soluções Baseadas na Natureza — SBN e como seus princípios aparecem nos projetos desenvolvidos pela Quanta em Maricá, especialmente na relação entre drenagem, retenção hídrica, permeabilidade e paisagem. Agora, seguimos para outro contexto ambiental e outra escala de infraestrutura: o semiárido do Rio Grande do Norte.

Em Jucurutu, o Complexo Hidrossocial Barragem Oiticica ocupa uma posição estratégica na segurança hídrica do estado. Inaugurada em março de 2025, a Barragem Oiticica é atualmente o segundo maior reservatório do Rio Grande do Norte, com capacidade superior a 740 milhões de metros cúbicos. A estrutura recebe águas das chuvas e pode receber aportes do Projeto de Integração do Rio São Francisco, ampliando a capacidade de armazenamento em uma região historicamente marcada pela irregularidade hídrica.

É dentro desse grande empreendimento que soluções de diferentes escalas precisam dialogar com uma mesma questão: como utilizar a água com eficiência, reduzir perdas, preservar sua qualidade e criar sistemas adequados às condições ambientais locais?

No projeto hidrossanitário da Casa de Comando, desenvolvido no âmbito da atuação da Quanta no Complexo, essa resposta envolve o aproveitamento das águas pluviais, o tratamento local dos efluentes e o uso de uma wetland construída, sistema inspirado no funcionamento de áreas úmidas naturais.

Do armazenamento de grande escala ao uso eficiente da água dentro do empreendimento

A Barragem Oiticica amplia de forma significativa a capacidade de reservação hídrica do Rio Grande do Norte. Segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, sua capacidade atual supera 740 milhões de metros cúbicos, e o empreendimento está associado ao atendimento de 43 municípios e às estratégias de segurança hídrica do Seridó.

Dentro dessa infraestrutura de grande escala, o projeto da Casa de Comando trabalha a água a partir de outra perspectiva: aproveitar os recursos disponíveis no próprio local e organizar ciclos de captação, tratamento, consumo e reúso.

A cobertura da edificação, com 129,78 metros quadrados de área de captação, foi incorporada ao sistema de aproveitamento das chuvas. A água é coletada por calhas, passa pelo descarte inicial das primeiras precipitações e por uma etapa de filtração antes de chegar ao reservatório.

O dimensionamento considerou uma série histórica de precipitações de 1996 a 2023, utilizando dados pluviométricos da região de Jucurutu. A partir da relação entre disponibilidade de chuva e demanda da edificação, foi definida uma cisterna de 30 mil litros, associada a um reservatório superior de 500 litros.

Essa solução ganha relevância quando observada em seu contexto climático. No semiárido, a precipitação se distribui de maneira irregular ao longo do ano, com períodos de maior concentração seguidos por meses de baixa disponibilidade. Captar e armazenar a água quando ela está disponível permite reduzir a dependência de fontes externas para determinados usos e organizar o consumo considerando essa sazonalidade.

A chuva passa por captação, tratamento e armazenamento antes de retornar ao sistema

O aproveitamento pluvial previsto para a Casa de Comando foi estruturado como um sistema completo. Após a captação na cobertura, ocorre o descarte das primeiras águas da chuva, etapa importante para remover resíduos acumulados durante os períodos secos.

Na sequência, a água passa por filtração, armazenamento e tratamento. O projeto prevê filtros para retenção de partículas e processo de desinfecção, além de acompanhamento dos parâmetros de qualidade da água. O sistema foi concebido para permitir seu aproveitamento na própria edificação, com monitoramento e manutenção definidos no projeto.

Essa leitura aproxima o projeto de um princípio recorrente nas estratégias contemporâneas de gestão hídrica: observar a água como um recurso que percorre diferentes etapas e pode permanecer em circulação por mais tempo antes de ser descartado.

No caso de Oiticica, essa lógica encontra um contexto especialmente relevante. A região atravessa ciclos de disponibilidade e escassez hídrica, enquanto o próprio reservatório exerce uma função estratégica de regularização. Em março de 2026, após novas chuvas, Oiticica ultrapassou 200 milhões de metros cúbicos armazenados, em um período no qual dezenas de municípios do estado estavam sob situação de emergência associada à seca.

Wetland construída utiliza plantas, substrato e microrganismos no tratamento dos efluentes

É no tratamento sanitário que aparece uma das relações mais diretas do projeto com as Soluções Baseadas na Natureza.

Depois de uma etapa inicial de tratamento em uma estação compacta, o efluente da Casa de Comando segue para uma wetland construída, ou área úmida construída. O sistema reproduz processos encontrados em ambientes naturais, utilizando a interação entre água, substrato, microrganismos e vegetação para melhorar a qualidade do efluente.

O fluxo percorre diferentes camadas de materiais filtrantes, onde ocorrem processos físicos, químicos e biológicos. Partículas ficam retidas, microrganismos ajudam a degradar matéria orgânica e as raízes das plantas participam da absorção de nutrientes como nitrogênio e fósforo.

A evapotranspiração entra nesse ciclo. Parte da água retorna à atmosfera pela evaporação e pela transpiração da vegetação, contribuindo para a redução do volume líquido no sistema.

Para a Casa de Comando, a wetland foi dimensionada com 8 metros quadrados de área superficial e profundidade útil de 70 centímetros. O projeto trabalha com camadas de brita, material filtrante e areia, sobre uma base impermeabilizada, criando as condições para o desenvolvimento das raízes e para o percurso controlado do efluente.

Afluente Esgoto Dutro – Fonte: Quanta Consultoria

Espécies adaptadas ao semiárido participam do funcionamento da wetland

A escolha da vegetação foi orientada pelas condições ambientais de Jucurutu. O projeto indica espécies capazes de responder à alta insolação, às temperaturas elevadas e às características locais, como taboa, bastão-do-imperador, papiro-do-brejo e junco.

Nesse sistema, a vegetação tem uma função diretamente ligada ao desempenho do tratamento. As raízes criam ambiente para comunidades de microrganismos, participam da absorção de nutrientes e contribuem para a evapotranspiração.

A lógica ajuda a entender por que uma wetland construída se aproxima dos princípios das Soluções Baseadas na Natureza. O tratamento depende de processos que ocorrem naturalmente nos ecossistemas e que são organizados tecnicamente para responder a uma necessidade específica de saneamento.

O resultado esperado é um efluente com redução de matéria orgânica, sólidos, nutrientes e microrganismos, preparado para etapas posteriores de desinfecção e destinação conforme os parâmetros técnicos previstos no projeto.

Da wetland ao reúso: a água tratada retorna para novas funções

As condições físicas da área influenciaram diretamente a solução adotada. Segundo o projeto, uma wetland baseada exclusivamente em evapotranspiração exigiria aproximadamente 50 metros quadrados, dimensão incompatível com o espaço disponível e com a característica rochosa do terreno.

A resposta foi dimensionar a wetland principalmente para o polimento do efluente, com redução estimada de cerca de 20% do volume líquido por evapotranspiração, seguida por uma etapa de desinfecção.

Depois desse processo, o efluente pode ser destinado ao reúso não potável, de acordo com os critérios técnicos e sanitários estabelecidos para o sistema. Entre as possibilidades consideradas estão usos como lavagem de pisos e veículos, reduzindo a necessidade de utilizar água de melhor qualidade em atividades que não exigem potabilidade.

Esse ciclo — tratar, melhorar a qualidade e direcionar a água para uma nova utilização — fortalece a eficiência hídrica do empreendimento e reduz o descarte de efluentes no ambiente próximo à barragem.

Proteger a qualidade da água faz parte da segurança hídrica

O sistema sanitário da Casa de Comando foi concebido considerando uma condição fundamental: a proximidade de um dos principais reservatórios do Rio Grande do Norte.

Por isso, o tratamento dos efluentes precisa impedir que a operação da própria infraestrutura gere impactos sobre o recurso hídrico que ela ajuda a gerir. O projeto combina tratamento convencional, processos naturais de polimento e desinfecção antes da possibilidade de reúso.

Esse cuidado conecta saneamento e segurança hídrica. A disponibilidade de água depende da quantidade armazenada, mas sua gestão passa igualmente pela proteção da qualidade, pelo controle dos efluentes e pelo uso eficiente das fontes disponíveis.

No Complexo Oiticica, essa relação ocorre dentro de uma infraestrutura que tem papel relevante para o abastecimento e para a regularização hídrica no Seridó. O reservatório foi concebido para apoiar o abastecimento humano e atividades produtivas e integra as estratégias de segurança hídrica associadas ao Projeto de Integração do Rio São Francisco.

De Maricá ao semiárido potiguar: SBN respondem a problemas diferentes

Os projetos apresentados ao longo desta série ajudam a mostrar que Soluções Baseadas na Natureza não correspondem a uma solução padronizada.

Em Maricá, vimos reservatórios urbanos em que retenção hídrica, permeabilidade, vegetação e espaços de uso público contribuem para enfrentar inundações e chuvas intensas.

Em Oiticica, a lógica aparece em outro contexto. A gestão da água está relacionada à realidade do semiárido, à necessidade de aproveitamento das chuvas, ao tratamento de efluentes e ao reúso. A wetland construída utiliza processos biológicos e vegetação como componentes efetivos do sistema de saneamento.

As escalas mudam e os desafios mudam. O princípio permanece ligado à leitura das condições locais e à escolha de processos capazes de trabalhar com a dinâmica da água e dos ecossistemas.

Relevância Estratégica

A atuação da Quanta no Complexo Hidrossocial Barragem Oiticica reúne gerenciamento, supervisão e fiscalização de um empreendimento de grande relevância para a segurança hídrica do Rio Grande do Norte. Dentro desse contexto, o projeto hidrossanitário da Casa de Comando evidencia como decisões de menor escala podem incorporar princípios de eficiência hídrica e Soluções Baseadas na Natureza.

A captação da chuva considera a sazonalidade local; o armazenamento amplia o aproveitamento do recurso disponível; o tratamento sanitário utiliza uma wetland construída; a vegetação participa do processo de depuração; e o efluente tratado pode retornar ao ciclo em usos compatíveis com sua qualidade.

São escolhas que aproximam recursos hídricos, saneamento, engenharia e meio ambiente diante de um desafio central do semiárido: fazer uma gestão responsável da água em todas as etapas, da reservação ao uso, do tratamento ao reúso.

Depois de Maricá, Oiticica amplia a leitura desta série e mostra outra possibilidade de aplicação das Soluções Baseadas na Natureza: processos naturais incorporados a sistemas técnicos para fortalecer a eficiência, a sustentabilidade e a segurança hídrica.

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