O Brasil convive há décadas com desigualdades profundas de renda, acesso a serviços e oportunidades. Mas medir o tamanho dessa desigualdade é diferente de compreender o quanto uma pessoa consegue mudar sua condição socioeconômica ao longo da vida.
Essa é uma das questões colocadas pelo Atlas da Mobilidade Social no Brasil. Ao analisar os resultados do estudo, Guilherme Vianna, coordenador de Economia da Quanta e doutor pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro — IPPUR/UFRJ, em 2026, destaca um aspecto central do debate: a origem familiar e territorial ainda exerce forte influência sobre as oportunidades ao longo da vida.
O Atlas parte da renda das famílias no início da vida dos indivíduos para estimar a probabilidade de ascensão social na idade adulta. Os resultados indicam uma mobilidade social baixa no país. Quanto menor a renda da família de origem, menor tende a ser a possibilidade de alcançar posições mais altas na distribuição de renda.
Os dados revelam um problema que atravessa gerações. O Brasil apresenta desigualdades elevadas no presente e, sem mudanças estruturais, essas diferenças tendem a permanecer no longo prazo.

Desigualdade precisa ser analisada em diferentes dimensões
Para modificar esse quadro, é preciso entender as desigualdades como um problema multidimensional.
A renda é uma parte importante desse diagnóstico, mas não explica sozinha a trajetória das famílias. Pessoas em situação de menor renda costumam enfrentar restrições simultâneas no acesso à educação, saúde, segurança, saneamento básico, habitação adequada, mobilidade, infraestrutura urbana e oportunidades de trabalho.
Por isso, os resultados do Atlas precisam ser observados em conjunto com a distribuição de renda e a forma como a população ocupa o território brasileiro. Essa leitura permite entender como diferentes condições se relacionam e interferem nas possibilidades de ascensão social.
A desigualdade aparece quando determinados grupos encontram condições sistematicamente melhores de acesso a recursos, serviços e oportunidades. Essas vantagens tendem a se centralizar e acumular.
Quem possui maior renda, em geral, encontra melhores condições de acesso à educação, saúde, infraestrutura, tecnologia e mobilidade. Com o tempo, parte dessas vantagens se reproduz entre gerações.
É nesse ponto que mobilidade social e planejamento territorial se encontram.
Pobreza, desigualdade e diversidade: conceitos distintos
No debate sobre mobilidade social, é importante delimitar três conceitos: pobreza, desigualdade e diversidade.
A pobreza, embora seja um problema multidimensional, está relacionada à ausência ou insuficiência de bens, serviços e condições considerados essenciais para subsistência.
A desigualdade ocorre quando recursos, oportunidades e condições de vida são distribuídos de forma diferente entre indivíduos e grupos da sociedade.
A diversidade parte de outra perspectiva. Cada indivíduo possui sua própria história, identidade, cultura e forma de compreender o mundo. Conhecer e vivenciar a cultura de um país, de uma cidade ou de um bairro são experiências essenciais para o convívio em sociedade. Reconhecer essas diferenças significa respeitar e valorizar os múltiplos pensamentos, identidades e formas de viver.
O problema da desigualdade ocorre quando determinada condição social, econômica ou territorial faz com que uma pessoa ou grupo tenha sistematicamente menos oportunidades do que outro.
É impossível que todas as pessoas tenham trajetórias idênticas. No entanto, em sociedades muito desiguais, uma vantagem em determinada dimensão costuma estar relacionada a benefícios em várias outras.
Renda, educação, moradia, raça, gênero localização, infraestrutura, tecnologia e acesso a serviços acabam se conectando e reforçando diferenças existentes.
Essas desigualdades podem se perpetuar porque as diferenças de oportunidades passam de geração para geração. Por isso, reduzir a pobreza e preservar a diversidade exige enfrentar as desigualdades de forma estrutural. E, para compreender esse processo, é necessário conhecer o grau de mobilidade social existente.

O que mostra o Atlas da Mobilidade Social
O Atlas da Mobilidade Social no Brasil é produzido pelo IMDS e pela Próspera LAB, com metodologia baseada no artigo Intergenerational Mobility in the Land of Inequality (Britto et al., 2025).
O estudo utiliza registros administrativos da Receita Federal, incluindo declarações de Imposto de Renda entre 2006 e 2019 e dados do Cadastro de Pessoa Física; informações do Ministério do Trabalho e Emprego, por meio da Relação Anual de Informações Sociais — RAIS, entre 1985 e 2019; dados do Ministério do Desenvolvimento Social, como Cadastro Único e Bolsa Família, entre 2011 e 2019; e pesquisas domiciliares do IBGE, como PNAD, PNAD Contínua e Censo Demográfico, no período de 1990 a 2019.
A integração dessas bases permite construir estimativas de renda formal e informal e analisar resultados relacionados a outras dimensões, como educação e fecundidade.
Os números evidenciam a persistência das desigualdades. Em nenhuma região do Brasil, uma pessoa nascida entre os 50% mais pobres apresenta probabilidade superior a 3% de chegar, na vida adulta, aos 10% mais ricos do país.
Na média nacional, a chance de uma pessoa nascida entre os 50% mais pobres deixar esse grupo na idade adulta é de 33,44%.
Os resultados mostram como as desigualdades podem se perpetuar entre gerações e como a condição socioeconômica da família de origem continua exercendo forte influência sobre as possibilidades futuras.
No Global Social Mobility Index, o Brasil ocupa a 60ª posição entre 82 países, refletindo as dificuldades existentes para ampliar a mobilidade social no país.

O território interfere nas oportunidades
As possibilidades de ascensão social não estão relacionadas somente às escolhas individuais.
O território onde uma pessoa nasce e cresce influencia o acesso a escolas, postos de saúde, saneamento, transporte, equipamentos públicos, emprego, cultura, infraestrutura urbana e outros serviços essenciais.
Quando uma região apresenta baixa oferta de empregos, mobilidade precária, déficit de saneamento, condições inadequadas de habitação e menor presença de equipamentos sociais, essas limitações podem se acumular ao longo da vida.
Por isso, políticas voltadas à redução das desigualdades precisam considerar como serviços, infraestrutura e oportunidades estão distribuídos no território.
Investimentos em saneamento, mobilidade urbana, habitação, infraestrutura, geração de emprego e qualificação de áreas periféricas podem contribuir para ampliar as possibilidades de desenvolvimento social e econômico.
Esse processo exige planejamento de longo prazo e articulação entre diferentes políticas públicas.

Planejamento integrado como parte da resposta
Reduzir desigualdades intergeracionais demanda atuação do setor público em diferentes dimensões.
Políticas territoriais podem contribuir para esse processo ao melhorar as condições de mobilidade urbana, ampliar a oferta de saneamento básico, estimular a geração de empregos, qualificar áreas periféricas e aproximar moradia, serviços e atividades econômicas.O planejamento permite identificar onde as desigualdades se concentram, quais fatores estão associados a elas e quais intervenções podem produzir impactos mais consistentes ao longo do tempo.
Trata-se de uma abordagem que exige leitura integrada do território e articulação entre desenvolvimento urbano, infraestrutura, economia, meio ambiente e políticas sociais.
Experiências da Quanta
A Quanta atua há mais de duas décadas em trabalhos relacionados ao planejamento territorial e à estruturação de políticas e ações com potencial de contribuir para a redução de desigualdades em diferentes regiões do Brasil.
Um desses exemplos é o Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado da Região Metropolitana do Rio de Janeiro — PEDUI-RMRJ, concluído em 2018. O trabalho abordou dimensões como mobilidade, desenvolvimento econômico, habitação, equipamentos sociais e patrimônio natural e cultural, a partir de uma leitura integrada das desigualdades territoriais metropolitanas.

No Plano Diretor Participativo de Fortaleza — PDPFor, a discussão sobre desigualdades territoriais esteve relacionada ao planejamento do uso do solo, infraestrutura, desenvolvimento econômico, meio ambiente e participação social.
Em 2026, o Plano Territorial de Desenvolvimento Sustentável da Bahia — PTDS-BA adotou uma abordagem territorial e participativa para identificar demandas, potencialidades e prioridades em diferentes regiões do estado, considerando as particularidades de cada território.

A experiência da Quanta inclui ainda programas e projetos com atuação direta em áreas marcadas por vulnerabilidades urbanas, sociais e ambientais.
O Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus — PROSAMIM trabalha com soluções para problemas urbanos, ambientais e sociais que afetam assentamentos informais em Manaus, articulando intervenções de infraestrutura, urbanização, habitação, meio ambiente e ações sociais. Em Maricá, os projetos do Minha Casa Mais Bonita com seu Programa de melhorias habitacionais na comunidade do Risca Faca atuam diretamente sobre as condições de moradia e qualidade de vida da população.

Já o Programa de Resiliência Climática e Segurança Hídrica na Bacia Amazônica busca desenvolver soluções baseadas na natureza para enfrentar vulnerabilidades ambientais e sociais em municípios selecionados. São experiências distintas em escala, território e escopo, mas que partem de uma compreensão comum: as desigualdades são produzidas por fatores que se sobrepõem e precisam ser enfrentadas de forma integrada e junto da população.

Os dados do Atlas da Mobilidade Social ajudam a dimensionar esse desafio. Quando a origem familiar e as condições do território continuam exercendo forte influência sobre as oportunidades futuras, ampliar a mobilidade social passa pela transformação das condições existentes nesses territórios.
Esse caminho envolve planejamento de longo prazo, participação social e políticas públicas articuladas, capazes de transformar diagnósticos em ações e contribuir para a redução das desigualdades.