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Planejamento Urbano e Regional
Tempo de Leitura: 5 minutos

Imaginar territórios: entre técnica, afetos e direito à cidade.

Imaginar territórios: entre técnica, afetos e direito à cidade.
Publicado em
18 março 2026

No percurso que a Quanta vem desenvolvendo no Projeto Cidade Viva e na Revisão do Plano Diretor Participativo de Fortaleza, ganha força uma compreensão central: o direito à cidade não se limita ao acesso à infraestrutura, aos serviços ou às garantias formais. Ele também envolve pertencimento, vínculos e a possibilidade de imaginar futuros para os territórios onde a vida acontece.

A experiência em campo mostra que a leitura técnica, embora indispensável, não basta para compreender a complexidade urbana. Mapas, fluxos e zoneamentos convivem com dimensões igualmente decisivas, como memória, afeto, desejo, medo e identidade. É nesse ponto que a reflexão de Raquel Morano se aprofunda: pensar a cidade também é enfrentar a heteronomia, no sentido discutido por David Harvey, quando os destinos do território são definidos sem a participação efetiva de quem o vive.

Neste artigo, a coordenadora de Arquitetura e Urbanismo da Quanta discute como escuta, presença e metodologias participativas ampliam a leitura dos territórios e contribuem para cidades mais vivas, seguras e acolhedoras.

Quando o território também é feito de memória, desejo e imaginação 


Por Raquel Morano

No trabalho que desenvolvemos no Ceará, no âmbito do Projeto Cidade Viva – parte do Programa Integrado de Prevenção e Redução da Violência (PReVio) do Governo do Estado do Ceará, aprendemos que o “Direito à Cidade” não é apenas uma garantia jurídica ou o acesso a saneamento e transporte — embora estes sejam urgentes e inegociáveis. O verdadeiro Direito à Cidade começa quando devolvemos às pessoas o direito de imaginar o lugar onde vivem, como nos inspira Henri Lefebvre.

Como arquiteta e urbanista, fui treinada para ler a cidade por meio de camadas, com um olhar técnico. Desenhar com o que permite o zoneamento, entender a presença e ausência das diversas infraestruturas, estudar os fluxos, verificar a densidade. O saber técnico nos ajuda, e muito! No entanto, é preciso mais. Mais envolvimento. Mais aproximação. É aqui que moram brechas. Hiatos. Uma conta que não fecha. Camadas invisíveis onde a vida realmente acontece e que somente o conhecimento técnico não alcança.

Camadas como a memória, o desejo e a imaginação. Quando falo em memória, trago aqui reflexões sobre experiências passadas e a história pessoal e coletiva que estão enraizadas em um local específico. O que é um lugar sem as histórias que acontecem ali? Sem o beijo naquela menina naquela praça embaixo daquela árvore com aquele cheiro? Essa praça precisa sobreviver ao tempo, ao espaço e às intervenções. Esse é o meu desejo, o que eu imagino. O lugar não é somente o que ele é fisicamente, mas também o que ele representa, ou o que já se viveu ali, ou o que as pessoas ou eu ou você desejamos que ele seja, refletindo aspirações e identidades pessoais e coletivas.

Lembro de uma das disciplinas do meu primeiro semestre da graduação, Psicologia Ambiental. Nela estudamos um conceito chamado “Senso de Lugar” (Yi-Fu Tuan, 1973). Este é um conceito que reside precisamente nestas brechas: a dimensão subjetiva e emocional que transforma um espaço físico em um lugar dotado de significado. 

Em territórios marcados pela vulnerabilidade, o cotidiano muitas vezes impõe uma lógica de sobrevivência e de escassez. O medo constrói muros literais e simbólicos, gerando o que podemos chamar de “arquitetura da vigilância”. Esta manifestação do controle espacial associada a uma postura tecnicista, se materializa muitas vezes por meio da “arquitetura hostil” que busca disciplinar os corpos e inibir a permanência, substituindo o convívio pelo afastamento. A lógica por trás disso remete ao Panóptico de Foucault: um mecanismo que busca a vigilância invisível e onipresente, instalando a disciplina e a auto-regulação no cerne do espaço público. Ao fazer isso, ela impede a ocorrência da “vigilância natural” que a teoria urbana, como a de Jane Jacobs, defende como a verdadeira base da segurança e vitalidade das cidades. Nesse contexto, sonhar com um futuro diferente, onde o espaço seja de pertencimento e não de exclusão, é, em si, um ato de resistência revolucionária.

Quando aplicamos metodologias participativas como a Árvore dos Sonhos, como no contexto do Projeto Cidade Viva, não estamos apenas fazendo um levantamento de demandas por mobiliário urbano. Quando pedimos para uma comunidade desenhar o que espera do seu território daqui a 10 anos, como na Revisão do Plano Diretor de Fortaleza, estamos abrindo uma fresta de luz. Um lugar para sonhar. Estamos dizendo que aquele espaço não é definido apenas pela situação de vulnerabilidade ou pelo conflito iminente, mas pela potência de quem reside. A imaginação se torna, assim, uma ferramenta política e urbana de primeira necessidade.

Essa perspectiva exige de nós, arquitetos e urbanistas, uma mudança de postura. Nos convida a sair de nossos computadores e pisar no chão da realidade, das cidades, das comunidades… Não como quem detém todas as respostas, mas como quem é ferramenta na concepção de espaços mais justos. A metodologia participativa que chama Caminhada Exploratória nos convoca o ato de ouvir, sentir e experienciar o lugar e nos ensina que o especialista em um território é justamente quem o habita.

Ao caminhar lado a lado com os moradores conseguimos ter outros níveis de compreensão acerca do lugar. O que pode parecer uma praça mal iluminada, para a comunidade pode ser um ponto de memória afetiva ou uma fronteira invisível de insegurança. A compreensão dessas camadas nos permite uma “leitura do território” aprofundada que transforma o projeto, e assim passamos a desenhar para e com as pessoas.

A grande lição que experiências como as que estamos construindo no Ceará nos trazem é que a segurança não se faz com policiamento ou câmeras somente. Cidades seguras são cidades vivas. São lugares onde a “vigilância natural” acontece porque há gente na rua, possibilitando que pessoas vivam suas experiências e construam memórias e afetos. Desta forma, entendemos que o projeto urbano não é sobre embelezar praças, é sobre criar espaços de pertencimento e apropriação. É substituir a “arquitetura hostil” por espaços de acolhimento, diversidade e troca.

Quando damos a uma criança a possibilidade de brincar na praça, quando um jovem encontra um espaço de cultura e não de exclusão, quando possibilitamos que qualquer pessoa com suas diversas características use e aproveite os espaços públicos, estamos reconstruindo o tecido social. Estamos dando acesso e oportunidade de encontro, vida e lazer. 

O direito (de imaginar) à cidade é o primeiro passo para transformá-la. E essa transformação só é possível quando nós, arquitetos e urbanistas nos vestimos de empatia, escuta, coragem para sonhar junto, força para construir e lutar por espaços democráticos, acessíveis e acolhedores.

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