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Maio Amarelo: Micromobilidade e Segurança Viária

O crescimento dos equipamentos elétricos amplia o debate sobre planejamento urbano, comportamento no trânsito e segurança coletiva.

Maio Amarelo: Micromobilidade e Segurança Viária
Publicado em
26 maio 2026

No Brasil, mais de 1,7 milhão de internações decorrentes de sinistros de trânsito foram registradas pelo SUS entre 2010 e 2019. Em São Paulo, as mortes no trânsito já superam os casos de homicídio doloso, enquanto estudos apontam que uma redução de apenas 5% na velocidade média pode diminuir em até 30% os sinistros fatais.

Os dados ajudam a dimensionar um debate que vai além do comportamento individual e envolve planejamento urbano, fiscalização, desenho viário e a forma como o espaço público é compartilhado. Em um contexto de crescimento da micromobilidade e da circulação de equipamentos elétricos, temas como velocidade, infraestrutura e segurança viária passam a ocupar um papel cada vez mais presente nas discussões sobre mobilidade urbana.

Nessa entrevista, Matheus Barboza, Doutor em Engenharia de Transportes pela POLI/USP e pela University of Twente, Coordenador de Mobilidade Urbana da Quanta Consultoria e pesquisador do CCDEP, comenta como planejamento urbano, desenho viário e responsabilidade compartilhada se relacionam com a segurança no trânsito.

Segurança viária, micromobilidade e convivência urbana 

O Maio Amarelo de 2026 traz uma provocação importante para o debate sobre mobilidade urbana: “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”. Em um contexto de crescimento da micromobilidade e da circulação de ciclomotores, bicicletas elétricas e outros equipamentos nas cidades brasileiras, a discussão sobre segurança viária passa também pela forma como planejamos, regulamos e compartilhamos o espaço urbano.

Para Matheus Barboza, o debate sobre segurança no trânsito não pode ser reduzido apenas ao comportamento individual.

“Quando assumimos o guidão de um ciclomotor ou de uma bicicleta elétrica, assumimos também a responsabilidade pela vida de quem cruza o nosso caminho. A segurança viária não nasce apenas de decretos; ela floresce no comportamento, no respeito aos limites do equipamento e no cumprimento rigoroso das regras de trânsito.”, explica.

Segundo Matheus, o próprio funcionamento do corpo humano ajuda a explicar parte dos riscos associados à velocidade. Em velocidades mais altas, o cérebro passa a concentrar atenção apenas no ponto central da visão, reduzindo o campo de visão periférica e a capacidade de reação diante de pedestres, ciclistas ou situações inesperadas no trânsito.

Além disso, ele destaca que existe uma tendência humana de subestimar riscos cotidianos no trânsito.

“No trânsito, tendemos a superestimar nossas capacidades e a subestimar o perigo de um pequeno excesso de velocidade ou de uma rápida olhada no celular”, afirma.

Além do comportamento individual, a segurança viária também depende de políticas públicas e organização do espaço urbano. Segundo dados do SUS, entre 2010 e 2019 foram registradas mais de 1,7 milhão de internações decorrentes de sinistros de trânsito, gerando um custo superior a R$ 3,8 bilhões. 

O uso do termo “sinistro”, em vez de “acidente”, reforça a compreensão de que muitas ocorrências no trânsito podem ser prevenidas por meio de comportamento seguro, infraestrutura adequada, fiscalização e redução de riscos. 

Para o Coordenador de Mobilidade Urbana da Quanta, políticas públicas relacionadas à redução de velocidade e à organização do espaço viário possuem relação direta com a redução de mortes no trânsito.

“A velocidade reduz o campo de visão e diminui nossa capacidade de reação. Quando circulamos rápido demais, deixamos de perceber quem está ao lado: uma criança atravessando, um ciclista surgindo lateralmente ou qualquer situação inesperada.”, observa.

Para dimensionar a gravidade do risco, Matheus recorre a uma comparação direta: uma colisão ou atropelamento a 60 km/h pode produzir efeitos equivalentes à queda de um prédio de cinco andares. 

Ele ressalta ainda que o debate sobre mobilidade precisa considerar a distribuição do espaço urbano entre diferentes modos de transporte. Dessa forma, a segurança viária também depende de infraestrutura adequada, fiscalização, normatização e medidas capazes de reduzir a chance de erro e proteger os usuários mais vulneráveis.

Entre os pontos apontados como prioritários para cidades mais seguras estão o redesenho de vias para induzir comportamentos seguros, a priorização dos usuários mais vulneráveis e a criação de espaços urbanos adequados para crianças e deslocamentos ativos.

O Maio Amarelo também é uma oportunidade de ampliar o entendimento sobre o trânsito como espaço coletivo.

“Enxergar o outro no trânsito é reconhecer que o espaço público é compartilhado. Segurança viária envolve comportamento, educação, fiscalização, desenho das vias e responsabilidade coletiva.”, conclui.

Ao longo da entrevista, percebe-se que a segurança viária não depende apenas do comportamento individual, mas também de planejamento urbano, regulamentação, fiscalização e infraestrutura adequada. Para ele, o debate sobre mobilidade precisa considerar como diferentes modos de deslocamento convivem nas cidades e disputam o uso da infraestrutura urbana. 

A discussão sobre segurança viária também passa pela atuação do poder público, pela responsabilidade de fabricantes e vendedores de equipamentos e pela construção de redes de mobilidade mais seguras e integradas. Assim, o Maio Amarelo amplia a discussão sobre trânsito para além das regras de circulação e reforça a importância de pensar as cidades a partir da convivência, da proteção aos usuários mais vulneráveis e das condições de deslocamento no espaço urbano.

Doutor em Engenharia de Transportes pela POLI/USP e pela University of Twente, nos Países Baixos. Atua como coordenador de mobilidade urbana na Quanta Consultoria e pesquisador no CCDEP, com formação em Engenharia de Transportes pela COPPE/UFRJ e Engenharia Civil-Aeronáutica pelo ITA.

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