O Dia Mundial da Infância nos convida a uma reflexão que ultrapassa a celebração: como as nossas cidades estão acolhendo aqueles que as vivenciam a partir de uma perspectiva a 90 centímetros do chão? Historicamente, o planejamento urbano brasileiro foi desenhado sob a lógica da eficiência produtiva e do fluxo de automóveis, muitas vezes invisibilizando crianças e seus cuidadores. No entanto, a construção de territórios mais democráticos exige que reconheçamos a criança não como um “projeto de cidadão”, mas como um sujeito de direitos pleno e presente.
Na Quanta, compreendemos que o direito à cidade para a primeira infância não se esgota na instalação de equipamentos de lazer. Ele se manifesta na autonomia de circular, no conforto térmico das calçadas, na presença de natureza e, sobretudo, na escuta qualificada. Para planejar cidades que educam e protegem, é preciso inverter a lógica: em vez de projetar para as crianças, devemos projetar com as crianças.
Nossas experiências recentes no programa Centralidades, em Belo Horizonte, têm demonstrado que metodologias lúdicas constituem instrumentos consistentes de diagnóstico técnico e territorial. Longe de serem apenas estratégias pedagógicas, essas abordagens revelam camadas de percepção urbana frequentemente invisibilizadas pelos métodos tradicionais de escuta.

Foto: Consórcio Quanta/Práxis
A partir da estratégia “Pequenos Urbanistas da Centralidade”, foi possível acessar leituras do espaço produzidas pelas crianças que ampliam, qualificam e tensionam o olhar técnico. Ao construírem a “Cidade dos Sonhos” por meio de colagens com elementos naturais, como folhas e sementes, e materiais expressivos como lápis de cor, giz de cera e massinha de modelar, em um ambiente de livre criação, as crianças elaboram representações densas sobre o microterritório em que vivem.
Os dados produzidos nesses processos são reveladores. São as crianças que indicam, por exemplo, que o aquecimento excessivo dos brinquedos metálicos sob o sol intenso reduz o tempo de permanência nos espaços públicos, evidenciando uma dimensão concreta do conforto ambiental urbano. São elas também que apontam como a ausência de árvores frutíferas empobrece a experiência cotidiana dos deslocamentos, retirando do percurso elementos de ludicidade, encontro e descoberta.
Emergem, ainda, elementos recorrentes em suas narrativas: a importância das pracinhas, a presença de brinquedos adequados, a necessidade de semáforos que organizem a circulação com segurança, a valorização de áreas verdes e o desejo por uma cidade marcada pela cor e pela vitalidade. Essas expressões não se limitam ao campo do desejo individual; elas revelam uma compreensão relacional e coletiva do espaço urbano.

Foto: Consórcio Quanta/Práxis
Nesse sentido, as dinâmicas participativas com crianças não apenas produzem informação qualificada, mas também mobilizam processos formativos. Ao afirmar que “a cidade não é minha, é nossa”, uma criança sintetiza um princípio fundamental da vida urbana: o reconhecimento do espaço como bem comum. A participação infantil, portanto, deve ser compreendida como um exercício de construção de cidadania desde a infância, no qual se entrelaçam percepção, pertencimento e responsabilidade coletiva.
Integrar essas vozes em sistemas de dados georreferenciados e planos de ação governamentais é o que transforma o “sonho” em política pública. Quando a cidade se torna segura e acolhedora para uma criança de cinco anos, ela se torna automaticamente melhor para o idoso, para a pessoa com deficiência e para as mulheres que realizam a maior parte das tarefas de cuidado no Brasil.
O compromisso com a primeira infância deve ser o eixo estruturante de um novo pacto urbano nacional. Ao pautarmos o território como um espaço de afeto e cidadania, estamos não apenas corrigindo as desigualdades do presente, mas desenhando cidades que, finalmente, pertencem a todos os seus habitantes.

Foto: Consórcio Quanta/Práxis