No conteúdo anterior, apresentamos o que são as Soluções Baseadas na Natureza — SBN, quais princípios orientam essa abordagem e como ela vem sendo incorporada ao planejamento urbano, à adaptação climática e à gestão das águas. Agora, o foco está em entender como esses princípios entram no desenvolvimento dos projetos da Quanta e passam a orientar decisões técnicas diante de problemas concretos.
Em Maricá, essa aplicação pode ser observada nos projetos dos reservatórios de Caxito, Condado e Ubatiba, desenvolvidos pela Quanta para a Prefeitura Municipal. As intervenções foram concebidas para contribuir com a mitigação das inundações por meio da retenção temporária das águas, do amortecimento dos picos de vazão e do uso de soluções que favorecem permeabilidade, infiltração e melhor resposta da drenagem urbana.
A necessidade desse tipo de intervenção ganha relevância diante da intensificação das mudanças climáticas. O próprio estudo de SBN elaborado para Maricá aponta que eventos meteorológicos extremos, como inundações, enxurradas, ondas de calor e períodos de seca, ampliam riscos sobre a infraestrutura pública, a segurança da população e o funcionamento dos serviços ecossistêmicos. Nesse cenário, a resiliência passa a depender da capacidade da cidade de antecipar, absorver e responder a condições hidroclimáticas cada vez mais severas.

Em Maricá, relevo, sistema lagunar e chuvas intensas aumentam complexidade da drenagem
A configuração física do município explica a importância dos reservatórios. Maricá apresenta planícies costeiras vulneráveis e um relevo descrito nos estudos como um “anfiteatro natural”, que conduz rapidamente as águas das áreas mais elevadas para setores planos e urbanizados. Ao chegar às áreas de jusante, o escoamento ainda encontra a influência do sistema lagunar e das marés, condição que pode dificultar a saída da água e ampliar a ocorrência de alagamentos e inundações.
Esse comportamento hídrico se torna mais crítico diante de chuvas de maior intensidade. O aumento da frequência de eventos extremos exige que a drenagem urbana seja pensada para lidar com volumes concentrados em intervalos menores de tempo, reduzindo a sobrecarga sobre galerias, canais e demais estruturas existentes.
É nesse contexto que Caxito, Condado e Ubatiba foram concebidos. Os reservatórios atuam na retenção temporária de parte do volume escoado durante períodos de chuva intensa, ajudando a amortecer os picos de vazão e reduzindo a pressão sobre os sistemas de drenagem situados a jusante.
A proposta se aproxima dos princípios de infraestrutura verde e azul, utilizados no projeto como referência para combinar estruturas hidráulicas, áreas vegetadas, permeabilidade do solo e espaços urbanos em uma resposta mais ampla aos desafios das águas.

Caxito, Condado e Ubatiba foram planejados para reter água antes que ela sobrecarregue a cidade
Os três reservatórios têm como função principal contribuir para a mitigação das inundações em Maricá. A lógica é armazenar temporariamente parte da água durante episódios de chuva intensa e liberar esse volume de forma controlada, reduzindo a velocidade com que ele alcança áreas urbanizadas e outros componentes do sistema de drenagem.
Essa estratégia responde diretamente a uma característica do município: a rápida transferência das águas das encostas para as áreas mais baixas. Ao criar capacidade de retenção em pontos específicos, os projetos introduzem uma etapa de amortecimento dentro desse percurso.
Caxito, Condado e Ubatiba foram desenvolvidos considerando as condições topográficas e ambientais de cada área, com diretrizes de redução de cortes no terreno, preservação da vegetação existente e adequação dos percursos à conformação local.
O alcance previsto mostra a dimensão social da intervenção. A área de influência direta dos três reservatórios reúne 58.216 pessoas e 28.534 domicílios, enquanto a área de influência indireta alcança 64.698 pessoas e 31.646 domicílios.
Esses números ajudam a dimensionar por que soluções de drenagem e adaptação climática precisam ser tratadas como parte do planejamento urbano. Em eventos extremos, os impactos da água atingem moradias, deslocamentos, infraestrutura, atividades econômicas e serviços essenciais, ampliando a importância de intervenções capazes de reduzir vulnerabilidades antes que os efeitos das chuvas cheguem às áreas ocupadas.

Retenção e infiltração atuam em pontos diferentes do mesmo ciclo da água
A resposta proposta para Maricá não se concentra somente no armazenamento realizado pelos reservatórios. Os projetos incorporam áreas permeáveis e pisos drenantes, criando condições para que parte da água infiltre no solo antes de chegar às estruturas de drenagem.
Entre os materiais previstos estão concreto permeável e fulget, empregados em percursos e áreas de permanência. A escolha considera o escoamento das águas pluviais, o conforto térmico, a acessibilidade e a relação com a paisagem, enquanto a implantação procura acompanhar a topografia existente e limitar intervenções desnecessárias no terreno.
Essa combinação atua em momentos distintos do ciclo hídrico. A permeabilidade reduz parte do escoamento superficial; os reservatórios recebem volumes que precisam ser temporariamente armazenados; a vegetação auxilia na relação entre água e solo. O resultado é uma resposta distribuída, formada por diferentes componentes que atuam sobre o mesmo problema.
É justamente essa leitura sistêmica que aproxima os projetos da abordagem das SBN. Em vez de concentrar toda a resposta em uma única estrutura, o projeto considera diferentes funções ecológicas e urbanas que podem contribuir para reduzir os efeitos das chuvas intensas.

Vegetação e infraestrutura verde ajudam a fortalecer a resposta ambiental
A vegetação prevista ao redor dos reservatórios participa da relação entre água, solo e paisagem. Os projetos buscam preservar áreas existentes e criar espaços verdes associados aos corpos d’água, aos percursos e às zonas de permanência, reforçando funções ligadas à infiltração, ao conforto ambiental e à biodiversidade.
Essa diretriz dialoga com o próprio estudo de SBN para Maricá, que aponta a necessidade de valorizar ecossistemas locais e serviços ecossistêmicos como parte das estratégias de adaptação climática. O município reúne serras, restingas, áreas costeiras e sistemas lagunares, elementos que precisam ser considerados na formulação de respostas às pressões da urbanização e aos riscos hidroclimáticos.
A vegetação, nesse contexto, participa do desempenho ambiental das intervenções e ajuda a reduzir a distância entre infraestrutura hidráulica e paisagem urbana. A escolha de áreas verdes, materiais permeáveis e soluções de menor impacto sobre o terreno cria condições para que a resposta às chuvas dialogue com os processos naturais já presentes em cada área.

Equipamentos e percursos aproximam os reservatórios do cotidiano urbano
Os projetos preveem quiosques, mirantes, quadras, passarelas, percursos acessíveis, áreas de contemplação e espaços de descanso associados às estruturas dos reservatórios.
Em Caxito, Condado e Ubatiba, a função hidráulica é acompanhada por uma organização dos espaços que considera circulação, permanência e lazer. Essa característica permite que áreas destinadas ao manejo das águas façam parte da estrutura urbana e da experiência cotidiana da população.
Os percursos seguem a configuração natural do terreno e procuram reduzir movimentações desnecessárias de solo. Os materiais e acabamentos previstos buscam manter diálogo com a paisagem e garantir acessibilidade nos diferentes espaços de convivência.
Esse desenho amplia o alcance social dos projetos e reforça um princípio recorrente nas SBN: intervenções voltadas à adaptação climática podem cumprir funções ambientais, hidráulicas e urbanas dentro de uma mesma estratégia.

Como a Quanta transforma os princípios das SBN em decisões de projeto
Nos reservatórios de Caxito, Condado e Ubatiba, a aplicação das Soluções Baseadas na Natureza começa antes da escolha de materiais ou elementos paisagísticos. O ponto de partida está na compreensão do comportamento da água e das condições físicas e ambientais de cada área.
A análise considera relevo, drenagem, impermeabilização, vegetação, riscos de inundação e formas de ocupação. A partir dessa leitura, são definidas estratégias de retenção, infiltração, preservação de áreas verdes, circulação e uso público.
Esse processo aproxima recursos hídricos, engenharia, urbanismo, paisagismo e meio ambiente, permitindo que diferentes especialidades atuem sobre o mesmo problema. O relatório de SBN para Maricá reforça justamente a necessidade de uma metodologia multidimensional, baseada em diagnóstico, identificação de vulnerabilidades e mapeamento de serviços ecossistêmicos para orientar prioridades e intervenções.
Nos projetos dos reservatórios, essa metodologia aparece de forma concreta: a água define parte da implantação; a topografia condiciona os percursos; a permeabilidade influencia os materiais; a vegetação participa do desempenho ambiental; e os espaços de uso público são incorporados desde a concepção.

Reservatórios passam a fazer parte da estratégia de adaptação climática de Maricá
As mudanças climáticas ampliam a necessidade de preparar as cidades para eventos hidrológicos mais severos e menos previsíveis. Para Maricá, essa preparação envolve reconhecer as particularidades de uma cidade costeira, marcada por áreas planas, sistema lagunar, influência das marés e rápida concentração das águas provenientes das áreas mais elevadas.
Os reservatórios de Caxito, Condado e Ubatiba respondem a esse contexto ao criar capacidade de retenção, ampliar áreas permeáveis e incorporar vegetação e espaços livres ao sistema de manejo das águas.
Com mais de 58 mil pessoas na área de influência direta, os projetos mostram como as Soluções Baseadas na Natureza podem orientar intervenções de escala urbana e contribuir para reduzir vulnerabilidades associadas às chuvas intensas.

Relevância Estratégica
Desenvolvidos pela Quanta para a Prefeitura de Maricá, os projetos de Caxito, Condado e Ubatiba mostram como a adaptação climática pode ser incorporada ao planejamento da drenagem a partir de uma leitura consistente das condições locais.
A retenção das águas, a permeabilidade dos solos, a preservação e inserção de vegetação e a qualificação dos espaços públicos são tratadas como partes de uma mesma resposta aos eventos extremos e às mudanças no regime de chuvas.
A experiência reforça uma metodologia da Quanta baseada em diagnóstico, interdisciplinaridade e compreensão dos processos naturais para orientar decisões de projeto. Em um cenário de maior pressão climática sobre as cidades, essa abordagem contribui para desenvolver infraestruturas capazes de responder às necessidades atuais e ampliar a capacidade de adaptação dos espaços urbanos.
