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Sustentabilidade Socioambiental
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Parque Urbano Inundável de Maricá: água, paisagem e adaptação climática

Desenvolvido pela Quanta, o projeto articula Soluções Baseadas na Natureza, mitigação de inundações, áreas de infiltração, vegetação nativa, acessibilidade, mobilidade, programa de necessidades, lazer, educação ambiental e uso público em uma infraestrutura preparada para responder às mudanças climáticas e às dinâmicas hídricas do território.

Parque Urbano Inundável de Maricá: água, paisagem e adaptação climática
Publicado em
18 setembro 2026

Depois dos reservatórios de Caxito, Condado e Ubatiba, a série sobre Soluções Baseadas na Natureza segue em Maricá com um projeto que trabalha a relação com a água em outra escala.

O Parque Inundável Urbano foi concebido para responder a um desafio recorrente do município: a concentração rápida das águas das chuvas em áreas planas e urbanizadas, agravada pela configuração do relevo, pela presença do sistema lagunar e pelas condições marítimas. O projeto cria condições para receber e armazenar temporariamente parte desse volume, reduzindo picos de vazão e ajudando a diminuir os impactos das inundações.

Com 633.559,60 m² de terreno e 36.693,45 m² de área construída, sem considerar a área destinada ao reservatório de água, o parque reúne infraestrutura hídrica, áreas de lazer, percursos, espaços de permanência e equipamentos urbanos em uma proposta de grande escala.

Desde sua concepção, o projeto foi associado aos princípios de cidades resilientes, buscando conciliar mitigação de inundações, adaptação às mudanças climáticas, segurança hídrica, bem viver e formas de apropriação dos espaços pela comunidade.

A água norteia o desenho do parque

Maricá reúne áreas suscetíveis a alagamentos e planícies costeiras vulneráveis a inundações. O relevo em forma de “anfiteatro natural” conduz rapidamente as águas das regiões mais elevadas para setores mais baixos e urbanizados, enquanto o sistema lagunar e as condições marítimas podem dificultar o escoamento.

No Parque Urbano Inundável, essa dinâmica passa a orientar o próprio desenho da infraestrutura. O projeto prevê bacias de detenção capazes de receber parte das águas pluviais durante eventos de chuva intensa, funcionando como um amortecedor hidráulico e reduzindo a pressão sobre áreas mais vulneráveis e sobre o sistema de drenagem.

A implantação foi definida a partir do estudo das curvas de nível e de dados hidrológicos, que orientaram as escavações necessárias para alcançar as cotas das bacias de detenção e os pontos de contenção. O projeto ainda organiza acessos, lazer e contemplação por meio de percursos elevados, mostrando como a leitura da água e do relevo interfere diretamente na forma urbana.

Soluções Baseadas na Natureza na prática 

No produto desenvolvido pela Quanta, as Soluções Baseadas na Natureza aparecem como protagonistas das soluções adotadas para o parque. A vegetação nativa prevista para as margens e áreas adjacentes, incluindo espécies da Mata Atlântica, tem funções relacionadas à estabilização do solo, infiltração e melhoria da qualidade da água.

As áreas de infiltração criam zonas permeáveis voltadas à recarga do lençol freático e à redução do escoamento superficial. Já o reservatório atua no controle de inundações, funcionando como amortecedor hidráulico nos períodos de chuva intensa.

Essas estratégias são complementadas por mobilidade, usos recreativos e educativos, arquitetura paisagística e educação ambiental. O resultado é uma infraestrutura em que água, solo, vegetação e uso público são trabalhados em conjunto.

Retenção, infiltração e recarga hídrica

A resposta às chuvas não fica concentrada em uma única estrutura.

Enquanto as bacias de detenção recebem os maiores volumes durante eventos intensos, as superfícies permeáveisajudam a reduzir o escoamento antes que a água se concentre. O projeto prevê mais de 24 mil m² de piso drenante de concreto, além de base e assentamento preparados para manter a funcionalidade permeável. O detalhamento técnico relaciona esse pavimento à drenagem da água da chuva, à recarga do lençol freático e à redução da carga sobre o sistema pluvial. Também aponta benefícios para o microclima urbano e para a redução de alagamentos.

Essa combinação entre armazenamento temporário e infiltração distribui a resposta ao longo do parque e aproxima o funcionamento da infraestrutura dos ciclos naturais da água.

Vegetação nativa, biodiversidade e qualidade da água

A vegetação participa diretamente do desempenho ambiental do projeto.

Além das espécies nativas previstas nas margens e áreas adjacentes, o relatório indica preservação das áreas verdes existentes, proteção de árvores de grande porte, reflorestamento e fortalecimento de corredores ecológicos. Também aparecem medidas de compensação ambiental com espécies nativas da Mata Atlântica.

Biovaletas e jardins de chuva são citados como alternativas de gestão hídrica para contribuir com a redução de erosão, manejo das águas e proteção do reservatório. O documento prevê ainda monitoramento da qualidade da água como parte das medidas de mitigação ambiental.

Nesse conjunto, as Soluções Baseadas na Natureza não entram como um componente paisagístico adicional. Elas participam do desempenho hídrico e ambiental da própria infraestrutura.

Programa de necessidades: um parque pensado para diferentes usos

A multifuncionalidade do Parque Inundável aparece de forma muito concreta no programa de necessidades.

O projeto prevê 24 quiosques, distribuídos em diferentes tipologias, 12 pergolados, 5 quadras, sendo três poliesportivas e duas multiuso, 2 arenas, 4 áreas infantis, 2 decks de madeira, 2 mirantes, além de guaritas e pórticos de acesso.

Esses equipamentos são distribuídos ao longo dos percursos e próximos às diferentes zonas de funcionamento do parque. Há áreas esportivas próximas às zonas de alagamento, módulos de permanência com quiosques, pergolados e espaços de descanso, além de setores voltados à recreação infantil, à contemplação e à realização de atividades culturais.

Um dos percursos paralelos conduz a um playground e outro chega a uma área de contemplação com deck e arena. A programação do espaço mostra que a infraestrutura hídrica foi pensada para continuar ativa no cotidiano, e não apenas nos momentos de chuva intensa.

As quadras, por exemplo, foram projetadas para receber práticas esportivas e também atividades culturais, ampliando as formas de uso ao longo do tempo.

Acessibilidade como parte do desenho

A acessibilidade aparece de forma explícita nas decisões do projeto.

O percurso em fulget vermelho foi concebido para se diferenciar visualmente dos demais acabamentos e orientar a circulação ao longo do parque. O trajeto é complementado por mapas táteis no início e no final do percurso, ampliando as condições de orientação para pessoas com deficiência visual.

Esse eixo conecta a maior parte dos equipamentos e foi planejado para garantir circulação segura e confortável, incluindo pessoas com mobilidade reduzida.

Os percursos elevados e as passarelas também desempenham um papel importante. Em pontos estratégicos, permitem observar a paisagem, os equipamentos e a dinâmica das águas nos períodos de cheia e estiagem, aproximando acessibilidade, mobilidade e experiência ambiental. 

Mobilidade e conexão com o entorno

A mobilidade não se limita aos caminhos internos.

O projeto prevê calçadas, ciclovias e estacionamentos nas áreas próximas ao reservatório, ampliando as possibilidades de acesso e incentivando o uso público.

Dentro do parque, diferentes percursos conectam as áreas esportivas, equipamentos, acessos, zonas de permanência e espaços de contemplação. Os materiais variam entre fulget, concreto permeável e decks de madeira, de acordo com cada situação e com as necessidades de drenagem, segurança e uso.

Essa rede de circulação ajuda a organizar um parque de grande escala sem separar mobilidade, paisagem e contato com a água.

Um parque que se adapta às chuvas 

Uma das principais características do projeto está na capacidade de funcionar de maneiras diferentes conforme as condições hídricas.

Durante períodos de chuva intensa, determinadas áreas participam do manejo das águas e da mitigação das inundações. Nos períodos de estiagem ou de menor precipitação, esses mesmos espaços permanecem disponíveis para esporte, lazer, permanência e contemplação. Essa dinâmica impõe desafios específicos. O produto destaca a necessidade de estruturas resilientes às variações do nível da água, com atenção à segurança, durabilidade dos equipamentos, manutenção e controle da qualidade hídrica.

A capacidade de mudar de função sem perder utilidade é um dos elementos que reforçam a relação do Parque Inundável com as Soluções Baseadas na Natureza.

Educação ambiental e apropriação social do espaço

O parque foi pensado também como espaço de aprendizagem e aproximação da população com as questões ambientais.

A equipe da Quanta buscou no produto prever trilhas ecológicas, áreas para atividades culturais e programas educativos voltados à compreensão da importância do reservatório e de práticas sustentáveis. Essa dimensão conversa com outra diretriz importante do projeto: a apropriação socioespacial dos ambientes requalificados.

O projeto considera que o uso contínuo pela comunidade é parte do processo de consolidação do parque e prevê uma estrutura flexível, capaz de evoluir conforme os espaços passem a ser apropriados e novas necessidades apareçam.

Com isso, educação ambiental, convivência e participação cotidiana deixam de ser complementos e passam a fazer parte da proposta urbana.

Mitigação de riscos e adaptação às mudanças climáticas

O Parque Inundável foi concebido expressamente como uma infraestrutura de mitigação de cheias e adaptação às mudanças climáticas. Em um cenário de maior pressão sobre sistemas urbanos vulneráveis, o projeto amplia a capacidade do território de receber, armazenar, infiltrar e conduzir água de forma mais controlada.

Essa resposta combina retenção, recarga hídrica, vegetação nativa, superfícies permeáveis e estruturas preparadas para conviver com as variações da água. Ao mesmo tempo, o programa de necessidades mantém o espaço ativo para lazer, esporte, mobilidade, contemplação e educação ambiental.

É essa combinação de funções que aproxima o parque das Soluções Baseadas na Natureza: reduzir vulnerabilidades a partir de processos naturais e transformar uma infraestrutura de mitigação de riscos em um espaço capaz de gerar benefícios ambientais e sociais ao longo do tempo.

Soluções Baseadas na Natureza em outra escala

Nos reservatórios de Caxito, Condado e Ubatiba, o conteúdo anterior da série mostrou como retenção, permeabilidade e vegetação podem entrar em infraestruturas voltadas ao controle das águas.

No Parque Inundável Urbano, essas estratégias se expandem.

A dinâmica hídrica orienta as bacias e cotas. A permeabilidade participa da drenagem e da recarga do lençol freático. A vegetação contribui para estabilização do solo, qualidade da água e biodiversidade. A acessibilidade orienta percursos. O programa de necessidades garante diferentes formas de uso. E a educação ambiental aproxima a população do funcionamento do próprio sistema.

O projeto mostra, assim, como as Soluções Baseadas na Natureza podem orientar uma infraestrutura urbana voltada simultaneamente à mitigação de riscos, adaptação climática, qualidade ambiental e vida cotidiana.

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